As piores decisões militares da história

2 de Julho de 2020

A 30 de março de 1856, a assinatura do Tratado de Paris colocou um ponto final à Guerra da Crimeia entre a Rússia e uma aliança de impérios europeus. A guerra durou dois anos e meio e incluiu um dos mais infames erros militares da história: a carga da Brigada Ligeira.

Más decisões conduziram a perdas catastróficas de vidas e fracassos no campo de batalha. Estes são quatro exemplos de erros militares que podem muito bem ser considerados os piores da história da guerra.

 

A CARGA DA BRIGADA LIGEIRA

No final de 1854, uma aliança de forças britânicas, francesas e turcas cercou Sebastopol, a principal base naval russa no Mar Negro, na península da Crimeia. A 25 de outubro, soldados russos atacaram a base de provisões dos Aliados em Balaclava e capturaram uma série de redutos.

Por Jove. Vão tirar as armas!” gritou um membro do pessoal de Lord Raglan enquanto observavam a ação a partir do seu campo de batalha. Raglan, o comandante das forças britânicas, nunca tinha perdido uma arma em batalha e não estava preparado para que isso acontecesse. Posto isto, rapidamente emitiu uma ordem: “Lord Raglan deseja que a cavalaria avance rapidamente para a frente: sigam o inimigo e tentem impedi-lo de tirar as armas”.

A ordem escrita foi dada ao capitão Lord Nolan. Nolan, foi incumbido de levar a ordem até ao fundo do vale e dá-la a Lord Lucan, um homem que Nolan desprezava. Quando Lucan leu a nota, questionou a operação. Nolan respondeu que a cavalaria deveria “atacar” imediatamente. “Atacar o quê? Que armas, senhor?” Lucan respondeu antes de Nolan, “Ali, meu senhor, é seu inimigo! Ali estão as suas armas!

No final, Lucan enviou a sua Brigada Ligeira, não em direção aos canhões capturados, mas sim para a artilharia russa no vale. Dos cerca de 676 homens que transportavam as armas, cerca de 278 foram mortos ou feridos juntamente com cerca de 400 cavalos. Devido à falha de  comunicação entre Raglan e o seu comando superior, a Brigada Ligeira perdeu-se nesse dia e os russos conquistaram a sua primeira vitória durante a guerra. Apenas algumas semanas após o evento, a poetisa Laurette Alfred Lord Tennyson imortalizou o evento para sempre com o seu poema “A Carga da Brigada Ligeira”.

 

A INVASÃO DE NAPOLEÃO À RUSSIA

Napoleão foi um brilhante líder que alcançou muitos sucessos no campo de batalha. Como imperador, transformou França no poder dominante da Europa, mas tudo isto lhe subiu à cabeça e provocou um excesso de confiança que lhe causou algumas adversidades. Em 1812, Napoleão decidiu invadir a Rússia, com o Inverno ao virar da esquina. O seu “Grande Armée” era constituído por cerca de 680.000 soldados, o maior exército alguma vez reunido na história da guerra daquela época. Apenas cinco meses mais tarde, o exército francês saía bastante fragilizado da Rússia, tendo perdido quase 500 000 homens.

Quando Napoleão chegou a Moscovo, deparou-se com um cenário caótico. Em vez de seguir em frente, decidiu ficar em Moscovo e esperar por uma oferta de paz dos russos. Uma oferta que nunca chegou e o Inverno estava cada vez mais próximo.

Quando o exército de Napoleão iniciou a sua retirada, seguiu o mesmo caminho para casa, um caminho que pouco tinha para oferecer em termos de mantimentos e abrigo, uma vez que os russos tinham destruído tudo e as insuficientes linhas de provisões francesas ofereciam pouco apoio.

Com a chegada do Inverno, a falta de mantimentos e de abrigo causou vários danos no exército francês. A par dos ataques persistentes das forças russas, o “Grande Exército” entrou num estado de desordem e a disciplina desapareceu.

Quando o último soldado francês chegou a solo russo, era evidente que esta tinha sido a mais sangrenta das Guerras Napoleónicas e um tremendo ponto de viragem para o Império Francês. Não só a reputação de Napoleão foi gravemente afetada, como o seu exército foi também uma recordação do seu antigo eu. Por último, o fracasso da invasão desencadeou a Guerra da Sexta Coligação, que viu Napoleão ser derrotado e exilado em Elba.

 

OPERAÇÃO BARBAROSSA

Inspirado por Napoleão, Hitler reuniu a maior força de invasão da história, mais de três milhões de pessoas, e iniciou a sua campanha contra a Rússia soviética em junho de 1941. Nesta fase da guerra, a Alemanha tinha a vantagem, mas a decisão de Hitler de dividir as suas forças em duas frentes, oriental e ocidental, não foi a mais acertada. Passados apenas cinco meses, a incursão de Hitler na Rússia soviética chegou ao fim, quase como uma cópia da invasão de Napoleão. Mas o que agravou a decisão de Hitler foi o facto de nada ter aprendido com a história: as linhas de provisões sobrecarregadas, os preparativos inadequados para uma guerra de desgaste, o Inverno russo e a vastidão do país contribuíram todos para a derrota alemã.

A Operação Barbarossa fez com que Hitler perdesse o seu maior exército, o Sexto Exército, durante a Batalha de Estalinegrado. Vista como objetivo secundário, a cidade poderia ter sido completamente ignorada pelas forças de Hitler ao dirigir-se para os campos petrolíferos mais estrategicamente importantes do Cáucaso. Em vez disso, o exército de Hitler cercou Estalinegrado e perdeu, permitindo que os soviéticos mudassem o curso da guerra. A derrota revelar-se-ia crucial e marcaria o fim da expansão alemã para Leste. A partir desse momento, o Terceiro Reich começou a travar uma guerra defensiva.

Quando o último soldado alemão conseguiu deixar o solo russo, já se tinham perdido milhões de vidas e a campanha fatalmente falhada de Hitler ficou registada nos livros de história como a mais sangrenta de todos os tempos.

 

A BATALHA DOS PENHASCOS VERMELHOS

A dinastia Han na China durou cerca de quatrocentos anos a partir de 206 a.C. Durante o seu governo, foram alcançados grandes avanços tecnológicos, incluindo o papel, a bússola e o primeiro sismógrafo do mundo. A dinastia chegaria ao fim em 220 d.C. com a China dividida em três estados, dando início ao período dos Três Reinos na história da China.

Embora vários fatores políticos e económicos tenham contribuído para a queda da dinastia, houve um enorme erro militar que desempenhou um papel preponderante. Esse erro ocorreu durante a Batalha dos Penhascos Vermelhos em 208 D.C., um confronto naval entre as forças do senhor da guerra do Norte, Cao Cao, e as forças aliadas dos senhores da guerra do Sul, Liu Bei e Sun Quan.

Centenas de milhares de indivíduos participaram nesta batalha, tornando-a numa das maiores da história naval com uma das piores táticas. Embora as forças de Cao Cao tenham superado grande parte dos seus inimigos, a maior parte dos seus homens era composta por infantaria e cavalaria que tinham pouca experiência no mar. Este foi o primeiro erro de Cao Cao, transformar uma força terrestre numa força naval com muito pouca prática. Mais tarde, os homens sofreram de enjoos terríveis. Para aliviar o seu sofrimento, Cao Cao decidiu acorrentar todos os seus navios para reduzir a má disposição dos seus homens. Alguns relatos sugerem que foi um espião do Sul que se infiltrou nas fileiras de Cao Cao e que o aconselhou sobre esta manobra tática. Embora isto tivesse resolvido a situação dos enjoos dos homens, transformou efetivamente os navios num alvo fácil e o inimigo tirou partido disso.

As forças do Sul encheram vários dos seus próprios navios com materiais inflamáveis e enviaram-nos para a frota do Cao Cao com ventos fortes que os empurraram rapidamente. Fingindo render-se, os navios inimigos aproximaram-se deles. No último minuto, os marinheiros inimigos atearam fogo aos navios antes de saltar para barcos mais pequenos.

Os navios em chamas chocaram contra a armada de Cao Cao e incendiaram-na. Não só toda a frota de Cao Cao queimou, como o fogo também se espalhou pelo seu acampamento em terra, devastando as suas forças e levando Cao Cao a emitir uma ordem para se retirar.

O resultado da batalha confirmou a separação da China em duas metades, uma a Norte e outra a Sul, com o vale do rio Yangtze como fronteira. A divisão cultural e política teria durado séculos e tudo podia ter sido diferente se Cao Cao não tivesse decidido amarrar todos os seus navios.

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