QUAL A RELAÇÃO ENTRE AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E A PRIMAVERA ÁRABE?

4 de Dezembro de 2019

Já é uma realidade, não é um vaticínio de algum especialista ou de alguma ONG… Quem o afirma é Diego Rubio, Professor de História Aplicada na IE University e Diretor-executivo do “Center for the Governance of Change” (organização focada nas alterações climáticas) no documentário “Uma História Do Futuro”, tal como alguns autores de diversos estudos.


Uma onda de calor assolou o hemisfério norte, ao ponto de a Rússia ter atingido temperaturas na casa dos 44 graus, como nunca tinha sido visto.


A 23 de janeiro de 2019, o Instituto Internacional para a Análise de Sistemas Aplicados (IIASA, de acordo com a sigla em inglês) publicou um estudo que confirmava o que muitos cientistas e meios de comunicação já previam: a influência das alterações climáticas nos conflitos violentos ocorridos no Médio Oriente, como por exemplo, a Primavera Árabe.

O estudo estabelece uma relação de causalidade entre a Primavera Árabe e a migração da população do Médio Oriente e os efeitos das alterações climáticas. Os cientistas responsáveis, pertencentes a diversas universidades do mundo inteiro, utilizaram os dados dos pedidos de asilo de 157 países, de 2006 a 2015, e os dados do Índice Normalizado de Precipitação e Evapotranspiração, (SPEI) que mede as secas, comparativamente às condições normais. Embora não seja possível afirmar que as alterações climáticas provocaram a Primavera Árabe, a verdade é que atuaram como o detonador. Eis uma breve descrição do que aconteceu…

No verão de 2010, uma onda de calor assolou o hemisfério norte, ao ponto de a Rússia ter atingido temperaturas na casa dos 44 graus, como nunca tinha sido visto. E como vivemos num mundo plenamente globalizado, esta situação desencadeou uma série de acontecimentos que acabariam por afetar territórios situados a milhares de quilómetros de distância. Um efeito borboleta que terminaria em conflitos violentos…

Ocorreram incêndios intensos nas regiões centrais da Rússia que levaram a cortes de água. Estes, por sua vez, resultaram na perda de 70% das colheitas. Perante tal situação problemática, o Kremlin decidiu cancelar temporariamente as exportações de cereais para o estrangeiro. A cadeia de acontecimentos continuava… O trigo aumentou de forma exorbitante em diversos países, nomeadamente no Egito, onde 70% do trigo consumido provinha da Rússia e, perante a falta da matéria-prima essencial, todos os produtos derivados, como o pão, subiram imenso de preço. Em média, as famílias egípcias destinam 40% do seu rendimento à alimentação, pelo que o aumento exorbitante do pão teve um grande impacto nas contas familiares.

 


Os problemas relacionados com o clima provocarão um aumento da insegurança nos Estados Unidos e em todo o planeta.


 

O contexto em que ocorreu esta situação era, já por si, convulso. A crise económica global que tinha começado em 2008, o abuso de poder por parte de Hosni Bubarak e outros acontecimentos desencadeados nos anos anteriores, somados à subida excessiva do preço do trigo, tornaram o Egito no “caldeirão perfeito” para que a pressão acumulada explodisse, e assim foi… Em janeiro de 2011, a revolução invadiu as ruas de Cairo. A Primavera Árabe mudou o destino do Egito para sempre.

 

 

 

SERÁ QUE AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS CAUSAM GUERRAS E REVOLTAS?

 

De acordo com Diego Rubio e Myles Allen, Professor de Ciências do Geosistema na Universidade de Oxford, “em alguns casos, as alterações climáticas acrescentarão uma pressão extra à já existente, o que fará com que os sistemas que conhecemos atinjam o limite e a situação levará a conflitos violentos e a guerras”.

Outro estudo realizado pelo Conselho Militar Adjunto dos EUA, refere igualmente que as alterações no clima influenciaram, realmente, a ocorrência da Primavera Árabe e o aumento das tensões em certos países, como a Síria, ou os conflitos no Mali. Nestes casos, as alterações climáticas foram consideradas como um fator adicional aos já existentes.

Por conseguinte, muitos afirmam que se trata de um desafio complexo que abarcará muitas décadas. Os problemas relacionados com o clima provocarão um aumento da insegurança nos Estados Unidos e em todo o planeta. E isto será de tal forma que, embora não se tenha certezas sobre qual será a magnitude das alterações que vamos enfrentar, devemos atuar já hoje para nos protegermos.

“Este relatório deixa bem claro que se devem empreender ações para fomentar a resiliência face aos impactos das alterações climáticas. São necessárias mudanças já hoje! Já não nos podemos dar ao luxo para esperar para ver…”

 

Na série “UMA HISTÓRIA DO FUTURO”, 19 especialistas internacionais de renome analisam acontecimentos do passado para tentar clarificar fenómenos atuais e antecipar as suas possíveis consequências. Tal como afirma um desses especialistas, “a História não se repete, mas rima”. Não perca os novos episódios quartas 11 e 18 as 22h15

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